18 junho 2010

As intermitências de uma vida...

Por vezes temos de parar e sentir a vida passar-nos por entre os dedos... apenas isso, parar e sentir...

Por vezes a vida mostra-nos que a morte não passa de uma passagem para outra margem...

Não, não estou a tentar recordar a célebre música dos JáFumega. estou simplesmente a recordar-nos a todos que a morte pode muito bem ser uma viagem na barcaça que nos leva pelo reino de Hades, a revelar-nos tudo aquilo que poderíamos ter feito em vida e... que não chegámos a fazer...


O que dirá Saramago nesta sua viagem pela barcaça? O que dirá ele ao barqueiro nesta sua chegada à margem do rio que o levará até ao outro lado, aquele lado onde as almas se concentram à espera de uma nova descida à Terra?

Se a minha imaginação não me trair, ele estará neste momento a trocar com o barqueiro duas palavras acerca de como a palavra nos pode guiar por tantos caminhos diferentes que é preciso inventá-las de novo, com novos significados e com novos caminhos!

Se dependesse de mim, neste momento, na barcaça pelo rio do Hades, Saramago estará contemplando uma vida que atravessou por tantos diferentes caminhos quantos aqueles que me fez descobrir nas suas palavras...

... Saramago foi quem me fez despertar para uma escrita mais dérmica que epidérmica. Foi ele quem me fez ter uma vontade visceral de me revelar aos outros pelo verbo.O verbo sentido e amado, mais do que pensado. Pegar na língua mãe com carinho e ternura e levá-la ao avesso do verso, carregar-lhe as expressões com fúria e rasgar os sentidos de quem lê para o acordar da monotonia dos dias...

Saramago não é o Nobel da Literatura, Saramago é o homem da palavra reinventada, da escrita difícil e leitura complexa. É o homem que se ama ou odeia de forma visceral.

Posso dizer que amo a sua escrita, a sua exposição de cenas que nos aparecem perante os olhos cruas, reais, como um quadro de Rembrandt, plenas de humanidade. É por isso que amo Saramago o escritor. Mesmo que muitas vezes estivesse em desacordo com o homem.

Saramago já não é, mas na sua viagem pelo Hades, estará olhando duramente a sua vida, examinando os seus caminhos e se me não trair a imaginação, concluindo que a nossa vida é vários rios que afluem e defluem, levando-nos para um oceano que irá sempre dar àquela barcaça.

Mais vale que seja uma vida vivida na consciência de quem tem opiniões válidas, ainda que duras...

4 comentários:

Celina disse...

Infelizmente, dele, até agora, só li o Memorial do Convento. Demorei Agosto inteiro a lê-lo e achei aquilo tããão maçudo que mandei Saramago às urtigas até este ano. Passamos alguns meses a analisa-lo e é sem dúvida com uma perspectiva totalmente diferente que me atiro agora ao estudo intensivo da obra até ao exame :D Subscrevo o que dizes relativamente à distinção entre o homem e o escritor. Depois de saber do seu falecimento, estive a falar sobre ele com uma colega e frisamos isso mesmo. Eu gosto da opinião dele, da crítica que constrói tão bem camuflada, mas não posso concordar com quem abandona o país como se da peste fugisse. Mas sim, deixou-nos uma obra extensa e rica e é por ela que o quero recordar.

indomável disse...

Celina,
Saramago tem uma escrita muito dificil, muito complexa mas plena de humanidade.
Tenho de te confessar uma coisa... não sou uma leitora muito convencional. Não gosto de ler best-sellers, só quando já ninguém os lê. Não gosto de leitura simples e clarinha. não gosto de lamechices e tristezas. Mas gosto de uma escrita densa, profunda, com palavras que nos fazem sentir e pensar ao mesmo tempo.
Sou leitora ávida de Saramago, mas só desde os meus 30 anos...
E aqui chegamos onde eu queria.
Saramago tem uma idade para ser lido e mais do que isso, compreendido...
Não quero com isto dizer que tenhas de ter mais de 30 anos para o ler. quero apenas dizer que, eu tive de o deixar acontecer-me, como de resto quase todas as minhas leituras...

indomável disse...

Posso dizer-te ainda mais isto...
Conheci Saramago tinha eu uns 17 anos, portanto, há 20 anos atrás. Não gostei da pessoa, pedante, extremamente rígido no olhar, no juizo da juventude que se lhe apresentava como uma gigantesca multidão cacofónica e caótica.
Por isso quando ele foi Nobel e toda a gente se pôs a ler e a elogiar a sua obra, franzi o nariz e fiz um gesto de vómito enquanto revirava os olhos.

Depois, um dia, há menos de dois anos atrás, vi numa prateleira da biblioteca o Memorial do Convento a olhar-me de soslaio, em ar de desafio, como que dizendo-me: Não és capaz!

Confesso que sou uma perdida por desafios e portanto, levei-o para casa.

Devo acrescentar que esta foi uma fase dificil para mim. estava em profunda metamorfose e a escrita foi como que o casulo em que me escondi.
(pausa para suspiro)
Até hoje guardo em mim, com lágrimas e espanto, as imagens de Blimunda e Sete-sóis amando-se sem se olhar nunca mais me abandonaram. Não há texto que escreva que não me reporte àquele primeiro tomar de fôlego após a leitura do Memorial. Não há texto em que pense que não reveja na expectativa de desconstruir a escrita como ele o fazia!
Sabes, é que uma coisa é escrevermos algo que nos sai das entranhas com paixão e fúria.
Outra coisa é fazê-lo desconstruindo aquilo que conhecemos como língua.
Por isso é tão dificil lê-lo e por isso tem de se fazê-lo parcimoniosamente, com deslumbramento e juizo.

Só mais uma achega a esta paixão que lhe devoto e lhe devo.
Quando li depois, avidamente, O Evangelho segundo Jesus Cristo, deslumbrei-me mais uma vez ao ver, não imaginar, mas ver perante os meus olhos, a luz do sol que nascia sobre a gruta onde se escondiam Maria, José e Jesus, antes de fugirem do massacre dos inocentes, sentindo o mesmo alarme e a mesma angústia de Jose, sabendo o que se passava nas suas costas enquanto salvava o filho da morte certa!

É isto Saramago, uma leitura difícil que nos deixa marcas na alma...

(Vá, não te aborreço mais com isto)

Celina disse...

Como se eu me aborrecesse a ler coisas que importam :D

Custa-me tanto saber (porque realmente nem agora no 12.º Ano é altura para ler Saramago) que ainda não tenho idade para ler qualquer coisa... depois atiro-me de cabeça e faço parvoíces do género ler Memorial e Maias em 2 meses. Está claro que jurei para nunca mais xD Mas, como disse, depois de analisado, Memorial do Convento tornou-se um mundo totalmente diferente e por muito que isto não passe de uma ilusão tenho agora vontade de experimentar o Evangelho e o Ensaio. Sinto-me bastante ignorante por só me dedicar a pensar realmente nisto depois de ele ter falecido, mas percebo agora o quão destoante ele é relativamente a todos aqueles que viveram o mesmo período. Mais do que "ter a mania que é superior aos outros" como eu muitas vezes disse, ele é um homem à frente do seu tempo e que agora vejo que, muitas vezes, injustamente condenei. Provavelmente, será dele o primeiro livro que ler duas vezes ;D

PS - "franzi o nariz e fiz um gesto de vómito enquanto revirava os olhos" tantas vezes! xD